Transferência Embrionária – Etapa Chave

O ponto final de todo o processo de uma fertilização in vitro é a colocação do embrião dentro do útero materno. A conhecida transferência embrionária.
Muito se avançou na técnica de transferência embrionária desde 1978, ano do nascimento do primeiro bebê de proveta do mundo, na Inglaterra. Hoje, as transferências são realizadas com uso de aparelhos de ultrassom que ajudam muito a visualização do exato local de colocação dos embriões na cavidade uterina (endometrial), os catéteres (caninhos onde os embriões são colocados para poderem ser transferidos ao útero) têm menores diâmetros e são mais flexíveis e maleáveis, porém muitas dúvidas ainda existem a respeito dessa etapa tão importante, além de vários mitos. Mitos esses que os próprios médicos especialistas ajudaram a criar e que não têm nenhuma base científica comprovável.
Um dos pontos mais importantes está ligado ao que se faz logo após a transferência. Por anos, a recomendação, sem base científica, foi e ainda é manter a paciente deitada por minutos ou horas. As evidências mais recentes demonstram que, anatomicamente, o útero mantém uma posição mais horizontal, e portanto, teoricamente, melhor para manter os embriões dentro do mesmo, se a paciente está na posição supina (em pé), ou seja, hoje a recomendação passa a ser levantar logo após a transferência. Os estudos têm demonstrado maiores taxas de gravidez e implantação embrionária quando a paciente levanta logo após o procedimento quando comparado a ficar deita por 5/7/10/15/30 minutos ou mais, parece um contra-senso mas não é. Anatomicamente o útero tem uma flexão em torno do seu próprio eixo, o que o faz manter uma posição mais vertical quando a mulher está deitada. Outro ponto é que o repouso imediatamente após a transferência e nos dias que se seguem até o dia do teste de gravidez leva a um nível maior de estresse e ansiedade, isso parece afetar o sucesso do procedimento, portanto a recomendação é ter vida normal após a transferência, sem repouso especial algum.
O que se preconiza é lidar com essa fase da maneira mais natural e tranquila possível. Como costumo dizer, eu gostaria muito de realizar a transferência sem que a paciente soubesse, infelizmente isso não é possível, mas com certeza o estresse, a expectativa e a ansiedade atrapalham muito, mas muito mesmo, e são responsáveis por muitos resultados que poderiam ser positivos e não se concretizam.
É fundamental, também, que se realize uma transferência rápida, precisa, sem tocar no endométrio, sempre com o uso do ultrassom como guia visual, com a paciente com uma bexiga cheia, com catéteres suaves e flexíveis, com uma adequada limpeza do colo uterino, retirando-se o excesso de muco ou secreção. A posição da colocação dos embriões também pode interferir no resultado, tudo isso tem que ser calculado, preconiza-se, por exemplo, a colocação dos embriões distando cerca de 1,5 a 2,0 cm do fundo uterino.
Essas conclusões são atuais e logicamente poderão mudar com o passar do tempo, são baseadas em estudos e pesquisas recentes e ajudaram a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva a publicar um guia (guideline) neste mês de abril.
A mensagem que fica é que, nós médicos, devemos ser suaves, precisos e objetivos e que as pacientes devem encarar esta etapa de uma maneira mais leve e natural, mantendo suas atividades diárias, sem a necessidade de repouso absoluto ou parcial. Nada de ficar deitada na cama até o teste de gravidez, aliás, nem de ficar deitada logo após a transferência.
Menos estresse, menos ansiedade, mais suavidade e mais resultados positivos. Espero que possamos avançar cada vez mais no que diz respeito a uma etapa tão importante e crucial.
Fonte: “Performing the embryo transfer” – Fertility and Sterility, ASRM (Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva), Abril de 2017.
Texto escrito por Daniel Diógenes, Médico Especialista em Medicina Reprodutiva, Diretor Técnico da Clínica Fertibaby Ceará.

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